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A procura por Philip K. Dick

03/01/2011

Anne Rubenstein e Philip K. Dick / Reprodução

 

* Os trechos abaixo foram traduzidos do texto Philip K. Dick’s Masterpiece Years, publicado originalmente no site do jornal  The New York Times.

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Meio século depois, Anne R. Dick ainda se lembra daquele dia ensolarado de outubro, quando conheceu um exilado de Berkeley. Rosto bem barbeado e com seus 29 anos, ele havia acabado de se mudar para o enclave rural no oeste do condado de Marin, cheio de eucaliptos e corujas.

O autor de ficção científica Philip K. Dick estava de pé, com as mãos nos bolsos traseiros de sua calça jeans, balançando seus calcanhares e olhando para o chão de sua casa. Vestindo uma camisa de flanela e calçando botas do exército, ele parecia, Anne escreve em seu novo livro sobre ele, “gracioso e atraente – como alguém que está vestindo um disfarce”.

Naquele dia, em 1958, ela se apresentou a Dick, seu vizinho, que acabara de se mudar com a segunda esposa, Kleo. Em menos de um ano, o casal se divorciou. Pouco depois, Anne Rubenstein, como ela se chamava na época, uma viúva loira e magricela, casou-se com Philip K. Dick, então um autor empenhado. Após cinco anos, eles também se separaram. Neste período, Anne trabalhava numa joalheria; Dick deixou a barba crescer e escreveu algumas das histórias que lhe renderiam o título de “Calvino ou Borges da Costa Oeste”. (A Library of America começou a publicar seu trabalho em 2007.) A sra. Dick, hoje com 83 anos, dedicou os anos seguintes à procura do homem por trás do disfarce.

Essa busca é o tema principal de The Search for Philip K. Dick (A Procura por Philip K. Dick), uma biografia em forma de diário publicada em novembro do ano passado pela editora Tachyon, de San Francisco.

O livro, evitando o viés de crítica literária, é inestimável para fãs de Dick e estudiosos do autor, uma vez que é narrado por alguém que esteve muito próximo a ele em um dos momentos mais importantes de sua carreira. Dick escreveu ou desenvolveu aproximadamente uma dúzia de histórias enquanto esteve em Marin, incluindo O Homem do Castelo Alto, obra que ganhou o Hugo Award – o prêmio mais importante da ficção científica – em 1963. Os anos em Point Reyes foram os mais “caseiros” da vida de Dick, e um dos mais profícuos de sua produção literária.

Anne se refere aos anos com Phil, como ela o chamava, como sendo quase idílicos. Ele a ajudou a criar as três filhas do casamento com Richard Rubenstein, um poeta de San Francisco que falecera de mal súbito. O casal criava diversas aves e ovelhas. Todo dia de manhã, Dick atravessava uma cerca de madeira e arame farpado, cruzava um campo gramado até chegar a um casebre que ele chamava de “A Choupana”, onde gostava de exercer seu ofício de escritor.

Anne se recorda das longas conversas sobre expansão de perspectivas e dos livros que emprestou ao marido autodidata. Em 1961, no auge da popularidade das teorias freudianas e junguianas, ela presenteou-o com vários títulos prefaciados por Carl Jung, dentre os quais I Ching – O Livro das Mutações, que acabaria se tornando um dos argumentos principais de O Homem do Castelo Alto.

Ela revela que, mesmo sendo agorafóbico e tímido, Dick era uma pessoa de grande magnetismo pessoal. “Ele sabia como falar com as pessoas, como transformar suas emoções e pensamentos”, diz.

Mas a idílica vida doméstica do casal acabou de forma abrupta em 1963: Dick contou a seus vizinhos que sua esposa estava tentando matá-lo, e numa época em que os direitos das mulheres não eram tão avançados, ele conseguiu interná-la em uma instituição psiquiátrica por duas semanas.

Quando voltou para casa, e depois de Dick deixá-la para viver com a mãe em Berkeley, Anne descobriu uma dívida enorme do marido em uma farmácia, relacionada a substâncias que ela sequer sabia que ele consumia.

Reviravoltas estranhas como essa, por mais dolorosas que sejam, ajudaram a autora a entender esse período na vida de Dick. “Ele se doou muito”, reflete Anne, 52 anos após a inocente visita a um vizinho que mudou sua vida. “Talvez demais. Ele foi apertando cada vez mais o nó e acabou explodindo, como um balão.”

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– Vejo o livro The Search for Philip K. Dick
Conheça as obras de Philip K. Dick publicadas pela Aleph

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